Certa vez os apóstolos de Jesus fizeram-lhe um pedido: “Aumenta-nos a fé”. A resposta de Jesus para eles foi: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá” (Lc 17:5, 6).
Por quantas vezes, nós também, nos encontramos em situações tão difíceis que oramos a Deus: “Aumenta-nos a fé”. Sentimo-nos atribulados, confusos no meio de tempestuosas lutas que parecem não ter fim, então pedimos a Deus: “Aumenta-nos a fé...”.
E os apóstolos? Por que pediram a Jesus para que a fé deles fosse acrescida? Bem, falaremos sobre isto mais adiante...
Antes de qualquer coisa, devemos saber o que é a fé. O autor da carta aos Hebreus nos dá, no meu entender, o melhor conceito de fé que alguém poderia nos fornecer: “A fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver” (Hb 11:1).
Outro fator determinante sobre a fé é que não devemos simplesmente ter “fé” na “fé”, como fazem alguns. A nossa fé deve ter um objeto, um fundamento: Jesus Cristo. Devemos ter fé em Deus e em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. É no Pai, no Filho e no Espírito Santo, e na Palavra deste Deus Triuno que a nossa fé está alicerçada. O apóstolo Paulo escrevendo aos cristãos de Corinto disse a eles: “... a fé que vocês têm não se baseia na sabedoria humana, mas no poder de Deus” (I Co 2:5).
Esta fé a que me refiro não é a “fé natural”. A “fé natural” é aquela que todo “homem natural” (aquele que não passou pela experiência do novo nascimento) costuma expressar. O homem natural diz: “Se Deus quiser vou fazer isto ou aquilo”... “Vou fazer minha ‘fézinha’ na mega-sena”. A fé natural é aquela que diz certa canção popular: “Andar com fé eu vou... a fé não costuma falhar...”.
A fé que encontro na Bíblia não é também a fé supersticiosa da atual “superstição evangélica”, prática comum de muitos cristãos por aí afora. Estes são aqueles que vivem a dizer: “Eu declaro tal benção em minha vida”... “Declaro que vou receber minha benção”. Ora, “declaram” para quem? Caso estejam “declarando” algo para Deus, então isto é uma ordem dada a Deus e não uma oração baseada na humildade com a qual devemos nos apresentar diante daquele que é o Senhor nosso e não o nosso servo. Por outro lado, se estão apenas “declarando” que a benção virá confiando no poder da palavra que é proferida, então, isto não é oração, mas é uma “confissão positiva”. Confissão positiva é a fé na “confissão” e não a fé fundamentada em Jesus.
Tanto a fé natural do homem natural, quanto a fé supersticiosa de cristãos mal esclarecidos, não é a fé que Deus espera ser expressa em nosso relacionamento com Ele.
Dentre tantas coisas que poderíamos falar sobre a verdadeira fé, quero destacar duas de extrema relevância. A primeira delas trata-se daquilo que pode destruir ou enfraquecer a nossa fé. Conhecermos os inimigos da nossa fé em Deus é de suma importância, pois assim poderemos estar sempre prevenidos contra os seus ataques.
Evidentemente que são muitos os inimigos da fé em Deus. Entretanto, destaco apenas três, começando pelos falsos ensinos. Ensinos fraudulentos com a aparência da verdade são perigosos inimigos da fé do cristão. Tais falsos ensinos são transmitidos tanto por pregadores sinceros que reproduzem por ignorância o que lhes foi ensinado errado, quanto por pseudo-pastores que semeiam o erro visando benefício próprio. Paulo disse ao jovem pastor Timóteo: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (I Tm 4:1). Essa profecia tem-se cumprido literalmente em nossos dias, os últimos tempos...
O mesmo Paulo, na mesma carta, descreve outro inimigo da fé: o amor ao dinheiro e às coisas materiais. Assim escreveu: “Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores” (I Tm 6:9, 10).
A consciência manchada pelo pecado é um terceiro adversário da fé sincera a Deus. Ainda escrevendo à Timóteo, Paulo mais uma vez o alerta: “Conserve a sua fé e mantenha a sua consciência limpa. Algumas pessoas não têm escutado a sua própria consciência, e isso tem causado a destruição da sua fé” (I Tm 1:19). Quando desobedecemos a Deus sentimos o peso da culpa em nossa consciência. Então, se não houver arrependimento sincero e abandono do pecado, isso vai destruindo a nossa fé.
A segunda coisa que destaco a respeito da fé é a sua importância em suas mais variadas formas de expressão. A começar quando restauramos o nosso relacionamento com Deus por meio de Jesus. A salvação vem somente pela fé em Jesus Cristo. Em outras palavras, a nossa vida com Deus começa pela fé que depositamos em Jesus. Paulo em sua carta à igreja da cidade de Éfeso cita esta verdade: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8, 9), e, aos da região da Galácia afirmou: “Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl 3:26).
A partir do momento que somos salvos mediante a fé em Jesus, essa fé deve nos acompanhar por toda a nossa vida. Todo o nosso viver e o nosso relacionamento com Deus estão fundamentados na fé em Jesus. A respeito disso Paulo disse: “Assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor” (Ef 3:17). E mais: “Assim já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim. E esta vida que vivo agora, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se deu a si mesmo por mim” (Gl 2:20).
A fé é tão importante que precisamos dela para nos achegar a Deus e buscá-lo em oração: “Sem fé ninguém pode agradar a Deus, porque quem vai a ele precisa crer que ele existe e que recompensa os que procuram conhecê-lo melhor” (Hb 11:6). E não somente para buscá-lo, mas também para recebermos aquilo que em oração pedimos a Ele. Jesus nos prometeu que “tudo quanto pedirdes em oração, crendo, recebereis” (Mt 21:22). Tiago, em sua carta também fala da necessidade da fé quando pedimos algo para Deus: “Mas, se alguém tem falta de sabedoria, peça a Deus, e ele a dará porque é generoso e dá com bondade a todos. Porém peçam com fé e não duvidem de modo nenhum, pois quem duvida é como as ondas do mar, que o vento leva de um lado para o outro” (Tg 1:5, 6).
É pela fé em Jesus que vencemos os ataques do diabo. Comparando a vestimenta de um soldado romano do primeiro século com a armadura espiritual com a qual devemos lutar nossas batalhas espirituais, Paulo diz que devemos embraçar “sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno” (Ef 6:16). O apóstolo Pedro também mostra a fé como uma importante arma espiritual contra as astutas ciladas do diabo: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé...” (I Pd 5:8, 9). Esta última frase em outra tradução da Bíblia diz: “Fiquem firmes na fé e enfrentem o Diabo”. Sim, em nossa luta contra as trevas estamos na ofensiva e não na defensiva! Isso, pela fé em Jesus!
Vivemos num mundo caracterizado pela pós-modernidade, supervalorização da aparência, culto ao corpo, amor ao dinheiro, paganismo, idolatria, incredulidade, ceticismo intelectual, abandono dos valores éticos, morais e familiares. Portanto, o cristão para não ser influenciado pelos valores e estilo de vida do mundo deve lançar mão de sua fé em Deus. João, o apóstolo, afirma que “todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” (I Jo 5:4, 5).
Outra característica da verdadeira fé é que ela nos leva à obediência aos mandamentos de Deus. Assim foi com Moisés, o grande líder e profeta que comandou Israel em sua libertação da escravidão do Egito. O autor à carta aos Hebreus conta que “foi pela fé que Moisés, quando já era adulto, não quis ser chamado de filho da filha de Faraó. Ele preferiu sofrer com o povo de Deus em vez de gozar, por pouco tempo, os prazeres do pecado” (Hb 11:24, 25).
A verdadeira fé é a que suporta as provações da vida. Tiago, o irmão do Senhor, incentiva-nos com estas palavras: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança” (Tg 1:3). Pedro, semelhantemente escreveu aos seus destinatários que passavam por várias lutas e dificuldades: “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (I Pd 1:6, 7).
O verdadeiro cristão tem como característica a permanência na fé em Cristo. Lucas, em sua narrativa da primeira viagem missionária Paulo, diz que o apóstolo juntamente com Barnabé após terem “feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14:21, 22). Permanecer firmes na fé é a vontade de Deus para todos os seus filhos. Isso alegra o coração do Pai. Por esta razão, Ele diz: “o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma”. E o autor da carta aos Hebreus conclui com estas palavras: “Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma” (Hb 10:38, 39).
Por fim, a verdadeira fé é aquela que atua pelo amor. Em resposta aos cristãos da Galácia quanto à questão do dever ou não de se circuncidar, Paulo afirmou: “Quando estamos unidos com Cristo Jesus, não faz diferença nenhuma estar ou não estar circuncidado. O que importa é a fé que age por meio do amor” (Gl 5:6). Isso é a mais pura verdade! A fé sem amor perde seu valor, sua beleza e o seu propósito, pois “ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei” (I Co 13:2).
Tiago com toda propriedade demonstra que a verdadeira fé é aquela que é demonstrada por atitudes de amor: “Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tg 2:15-17).
Pois bem, voltemos ao pedido que os apóstolos fizeram para Jesus: “Aumenta-nos a fé”. Por que pediram para que Jesus aumentasse sua fé? Ora, por causa do ensino que Jesus lhes havia dado anteriormente: “Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe. Então, disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. Respondeu-lhes o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá” (Lc 1:3-6).
Os apóstolos pediram para o Senhor aumentarem a fé deles para conseguirem perdoar sempre seus ofensores. Naquele momento, não pediram fé para curar ou para realizarem algum outro milagre, mas para perdoarem seus ofensores.
É verdade que pela fé em Deus milagres podem acontecer, todavia, a fé que conduz ao amor e ao perdão é uma fé expressa na sua maior profundidade, muito maior do que aquela pela qual se opera milagres. Será que pode existir maior milagre que o amor e o perdão frutos de uma verdadeira fé em Deus?
Que ao final de nossa vida, possamos declarar como fez Paulo antes de sua partida para as moradas celestiais: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (II Tm 4:7).
A Deus seja a glória!