Hoje fui convidado para palestrar em uma escola. O tema era "Cultura de Paz". Foi-me dito que falaria para os pais e os alunos estariam juntos. Até aí tudo bem. Preparei-me para discorrer sobre a paz como resultado de um bom relacionamento conjugal e familiar, como estou acostumado a falar.
Cheguei no horário combinado e fui conduzido até o auditório vazio. Lá fiquei esperando. Aos poucos os alunos foram chegando. Meninos e meninas de oito a dez anos. Mas e os pais? À medida que o auditório foi enchendo, minha preocupação foi aumentando. O motivo: minha total incapacidade para falar às crianças. Minha preocupação se tornou em apavoramento total quando a professora que havia me convidado comunicou-me que os pais não viriam porque não foram devidamente avisados. Para o meu desespero maior, no lugar daqueles pais, foram colocadas mais crianças que acabaram por lotar o auditório.
Logo minha memória me transportou para uns vinte anos atrás, para a única experiência – totalmente frustrante, diga-se de passagem – que tive de ministrar algo para pré-adolescentes. Naquela ocasião eram apenas uns dez, o suficiente para eu ficar totalmente desconcertado e de cabelos em pé. A situação de hoje seria um pouco mais amedrontadora. O meu nobre público era composto por uns cem pré-adolescentes que falavam tão alto que suas vozes finas e estridentes poderiam ser ouvidas a uns dez quilômetros de distância.
Desesperado, fiquei pensando: “_ O que dizer? O que vou dizer?”. Então tive uma idéia genial: “_ Vou começar perguntando: ‘O que é a paz?’”. Foi quando o diretor da escola iniciou o programa da tarde fazendo a seguinte pergunta para a meninada: “_ O que é a paz?”. Naquele momento eu é que estava em busca da paz! Pensei comigo: “Ei amigo! Essa fala é minha!”.
Passados dez minutos, o diretor parecia “roubar” e esgotar todos os meus argumentos. Lembrei-me do Tiririca: “pior que tá não fica”. Então fui chamado para encarar os baixinhos que ali estavam para me ouvir. Dirigi-me para o centro do auditório trêmulo e inseguro, afinal de contas, falar às crianças não é e nunca será minha vocação. Mais calmo ficaria com uma platéia de cem ateus ou de cem pastores mais preparados do que eu. Sim, meus amigos! Com toda certeza! Mas aquelas cem crianças conseguiram me desequilibrar. Sem dúvida alguma, tive hoje diante de mim o público mais difícil para o qual falei em todo meu ministério.
Não. Não estou me fazendo de coitado. Coitados foram aqueles meninos e meninas que tiveram que me aturar por cerca de trinta minutos. Um palestrante inseguro, desajeitado, inábil, nervoso, e tantos outros adjetivos que descrevem minha incapacidade de falar às crianças. Agradeço a honra pelo convite da direção da escola. Agradeço mais ainda àquelas crianças que tiveram que me ouvir!
Prego e ensino a Palavra de Deus há mais de vinte anos. Ministro a Palavra a jovens, adultos, casais, solteiros, idosos, a grupos pequenos, a grupos grandes, em sala de aula, em fim, a variados grupos de todas as idades, exceto para as crianças. Quando falo para o público jovem ou adulto, meus ouvintes param pacientemente para me ouvir. Mas não os pré-adolescentes meus amigos! Ah, eles não! Basta alguém inapto como eu para que abram as asas impacientes da infância para não ouvir o tal inapto falar.
Meus ouvintes de hoje pareciam um mar revolto que de instante em instante quebra fortes ondas na praia. Assim foi meu público infantil. Quando pareciam silenciar enquanto eu falava, logo se agitavam ora falando uns com os outros, ora virando para trás, ora dando cascudos e murros no colega do lado. Isso sim é um mar agitado! Não por culpa deles, não! Por culpa sim, de minha incapacidade de prender-lhes a atenção para aquilo que tentava transmitir.
Quando terminei, após trinta minutos de debate (ou embate?), estava tão exausto quanto um nadador que atravessa a nado o Canal da Mancha. Lembrei-me quando certa vez tive que lutar contra a correnteza da água do mar para conseguir chegar à areia da praia. Naquele dia pensei que poderia perecer. Não sou nadador, nem mesmo amador, nem atleta. Tenho pouca resistência. E naquele dia na água do mar, pensei que não iria conseguir. Após imprimir toda força que consegui tirar não sei de onde, cheguei ao raso caindo exausto na areia da praia, ofegante e assustado. Assim me senti quando acabei minha palestra para meus pequenos nobres ouvintes.
Ao terminar a palestra fiquei pensando nos professores que dão aula por anos a fio para crianças e pré-adolescentes. Nunca, na minha vida, valorizei tanto tais mestres, como naquele momento. O que fui incapaz de fazer por trinta minutos, estes professores fazem com toda maestria, amor e dedicação ano após ano. A professora que me convidou para a palestra dá aulas para crianças e pré-adolescentes há vinte e cinco anos. Admirável.
Só me resta parabenizar os professores de crianças e adolescentes. Tais mestres são verdadeiros heróis, principalmente quando pensamos nos baixos salários que recebem e no desrespeito que sofrem diariamente em sala de aula. Um alto preço a ser pago por tão nobre tarefa e vocação. A vocês, minha admiração e meu reconhecimento. Deus os abençoe!

2 comentários:
Nossa Pastor! Que "saia justa"!! rs
Mas tenho certeza que no final das contas você conseguiu transmitir algo muito bom que vai ficar no coração dessas crianças ao longo de suas vidas!
Que assim seja, Sami!
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