De uns anos para cá, a criativíssima (às vezes para o bem, outras para o mal) igreja evangélica brasileira inventou mais uma onda do momento: o ressurgimento do título “apóstolo” para alguns de seus líderes espirituais. O problema não está no uso do título, bíblico por sinal. Está na motivação com a qual alguns tem se apropriado dele. Outro problema é a idéia crescente em alguns segmentos evangélicos que só é “apostólica” a igreja que possui “apóstolos”.
Certa vez li em um folder de determinado movimento evangélico que afirmava o seguinte: “Deus está restaurando a unção apostólica em sua Igreja”. Não é de admirar que o autor desta pérola tivesse o venerável título de “apóstolo”. Então me pus a refletir: “Como é que Deus pode estar restaurando algo em sua Igreja que nunca deixou de existir?”.
Ora, alguém pode negar que a Igreja Cristã desde a época da Reforma não tem atuado na Terra através da autoridade apostólica? A mensagem da Igreja sempre foi apostólica. Sua missão sempre foi apostólica. A autoridade espiritual sobre ela sempre foi apostólica. Alguém teria coragem de afirmar que os primeiros missionários congregacionais, metodistas, presbiterianos, batistas e assembleianos que plantaram a semente do Evangelho no Brasil não o fizeram na “unção” apostólica? É óbvio que sim! A história comprova essa verdade!
Tais missionários foram os primeiros apóstolos que entraram em nossa nação (aliás, os termos “missionário”, do latim, e “apóstolo”, do grego, possuem a mesma origem etimológica e significam “enviado”, “mensageiro”). Possuíam todas as credenciais do apostolado bíblico: desbravaram um campo não alcançado, pregaram o evangelho, fundaram igrejas, pastorearam as almas salvas, e operaram milagres no nome de Jesus.
Ainda hoje existem milhares de apóstolos espalhados pelo mundo, missionários anônimos em terras distantes. Valentes do Senhor que não aparecem nos shows gospel, não ganham fortunas vendendo suas músicas ou mensagens, não andam de carro novo e mal tem o que comer, vestir ou tratar das doenças de sua família. Mas lá estão eles, evangelizando os perdidos, expandindo o Reino na implantação de igrejas, cuidando das ovelhas do Senhor, tudo isso por meio da pregação da Palavra e de sinais operados pelo poder do Espírito Santo.
Tudo bem, se alguém de fato é apóstolo, divinamente chamado por Deus, não há problema algum em usar o título de “apóstolo”. Use o título não porque Deus “está restaurando essa unção na igreja”, mas, simplesmente, porque foi vocacionado por Deus para tal ministério. Todavia, esse obreiro deve apresentar todos os sinais de seu apostolado, conforme os mencionei acima.
Mas não é isso que tenho observado em alguns dos chamados “apóstolos” dos nossos dias. Fico pensando o que faz alguém receber o título de apóstolo (ou se autoproclamar tal coisa) se não possui os sinais do apostolado (assim como faz a multidão de falsos pastores que deveria se envergonhar de envergar título tão nobre). Quantos “apóstolos” de hoje que possuem um ministério inexpressivo, infrutífero e que não transforma a vida de ninguém? A verdade nua e crua é que muitos ostentam o título “apóstolo” por mania de grandeza, soberba e problemas emocionais não resolvidos (repito, por estes mesmos motivos, assim também fazem os falsos pastores).
Portanto, por favor, não venham me dizer que Deus está restaurando algo que nunca deixou de existir em sua Igreja. Isso é uma afronta à história da Igreja, e à inteligência do povo de Deus. O Senhor Deus não pode estar restaurando a “unção apostólica” na Igreja, pois tal unção nunca se ausentou dela desde os dias da Reforma.
O que caiu historicamente em desuso na Igreja foi o título de “apóstolo”, não sua autoridade sobre ela. Em razão dessa verdade, convenhamos, seria muito mais sincero e verdadeiro da parte daqueles que espiritualizam o ressurgimento do título afirmar honestamente: “Olha pessoal, é o seguinte: o título e o ministério apostólicos são bíblicos, e, por isso, vamos usar o termo para os nossos ministros que tenham de fato tal chamado divino”. Ponto final.
Agora, por favor, não nos venham com essa de que “Deus está restaurando a unção apostólica em sua Igreja”. Deus não tem nada a ver com isso. Espiritualizam o retorno do uso do título “apóstolo” e lhe conferem ares de “nova revelação de Deus”, com o propósito de enfiar goela abaixo do povo um título que, historicamente caiu em desuso na Igreja cristã.
Creio convictamente que o que torna uma igreja “apostólica”, não é ter “apóstolos” na igreja, nem ter a expressão “apostólica” na placa denominacional, mas sim, duas coisas fundamentais: a) A vida de Cristo presente na igreja por meio do Espírito Santo; b) A mensagem que a igreja prega e vive, estando comprometida com ela.
Sim, toda igreja formada por crentes regenerados pelo Espírito Santo e pela Palavra de Deus, que tenha a Bíblia como sua única regra de fé e prática, e esteja comprometida com o Evangelho de Cristo, essa igreja é verdadeiramente apostólica, pois seus membros regenerados estão “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2:20).
Nesses dias em que se vê uma busca desenfreada por títulos e posições por parte de obreiros cristãos, é preciso dizer que o mais importante não são os títulos eclesiásticos que possamos receber. O mais importante é o trabalho que realizamos. Paulo diz que “se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja” (I Tm 3:1). Vejam bem, a excelência não está no título, mas na obra que é almejada e realizada.
Que a obra que realizamos em amor, servindo a Deus e aos homens, seja o elemento motivador que nos impulsiona a trabalhar para o divino Mestre. Desse modo, “logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (I Pd 5:4).